Revista Maitreya 049
12 O melhor é que cada qual diga o que tem que dizer e não ponhamos objeções, porque cada qual é livre para dizer o que quiser, simples- mente. Porém as pessoas sempre vivem pondo objeções: objetam ao interlocutor e objetam, também, a si próprias. Claro, isto não significa que não exista o agrado e o desagrado; é óbvio que existe. Suponhamos que a qualquer um de nós, ponham para limpar uma pocilga, onde vivem os porcos... creio que este não seria, precisamente, um trabalho muito agradável. Teríamos direito de não achar agradável, po- rém uma coisa é que tal trabalho não nos pare- ça agradável e outra coisa muito diferente é que ponhamos objeções, que comecemos a protestar: “ Que porcaria é esta, meu Deus; nunca pensei que fosse descer a tal ponto! Ai de mim, desgraçado de mim etc., limpando uma pocilga de porcos! No que vim parar! ” Bem, com isso, a única coisa que consegue é fortificar, pois completamente, os “ Eus ” da ira, do amor-próprio, do orgulho etc. É, também, o caso de uma pessoa que, no princípio, nos desagrada: “ É que essa pessoa me parece tão antipática! ”. Mas uma coisa é que, no princípio, nos desagrade, e outra coisa é que nós estejamos fazendo objeções, que es- tejamos protestando contra essa pessoa: “ Mas é que tal pessoa me parece antipática, esta pes- soa é um problema ”, e que estejamos buscan- do subterfúgios para apunhalá-la, para eliminá -la. Com as objeções, a única coisa que conse- guimos é multiplicar a antipatia em nós, ro- bustecer o “ Eu ” do ódio, robustecer o “ Eu ” do egoísmo, o “ Eu ” da violência, do orgulho etc. Como fazer, neste caso, em que uma pessoa não nos é grata? É que todos devemos conhe- cer a nós mesmos, para ver por que não nos é grata essa pessoa. Poderia acontecer que essa pessoa esteja exibindo alguns dos defeitos que nós possuímos. Alguém tem, interiormente, o “ Eu ” do amor-próprio e, se outro exibe algum desses defeitos interiores, pois, obviamente, esse outro “ nos parece antipático ”. De maneira que, em vez de ficarmos fazendo objeções sobre essa pessoa, protestando, brigando, é melhor que de- vamos nos autoexplorar, para conhecer qual é esse “ elemento psíquico ” que temos interiormen- te e que origina essa antipatia. Pensemos que se nós descobrimos tal “ elemento ” e o dissolve- mos, a antipatia acaba. Mas se nós, em vez de investigarmos a nós mesmos, fazemos obje- ções, protestamos, trovejamos , relampejamos contra essa pessoa, robustecemos o “ Ego ”, o “ Eu ”, isso é indubitável. Dentro do mundo do intelecto, não há dúvida de que sempre estamos pondo objeções. Isto produz a divisão intelectual: divide-se a mente entre tese e antítese, converte-se em um campo de batalha que destrói o cérebro. Observem como essas pessoas que se dizem “ intelec- tuais ” estão cheias de estranhas manias – al- guns deixam o cabelo irreverente, se “ coçam ” espantosamente etc., fazem cinquenta mil pa- lhaçadas; claro produto de uma mente mais ou menos deteriorada, destruída pelo batalhar das antíteses. Se a todo conceito pomos objeções, nossa mente termina brigando sozinha. Como conse- quência, vêm as enfermidades ao cérebro, as anomalias psicológicas, os estados depressivos da mente, o nervosismo, que destroem órgãos muito delicados, como fígado, coração, pân- creas, baço etc. Porém, se nós aprendemos a não ficar fazendo objeções, mas que cada um pense como lhe venha na vontade, que cada um diga o que quiser, estas lutas acabarão den- tro do intelecto e, em sua substituição, virá a paz verdadeira. A mente da pobre gente está lutando a toda ho- ra: luta, espantosamente, entre si, e isso nos conduz por um caminho muito perigoso, cami- nho de enfermidades do cérebro, de enfermi- dade de todos os órgãos, destruição da mente, muitas células são queimadas inutilmente. Há que viver em santa paz, sem pôr objeções; que cada um diga o que quiser e pense o que venha na vontade. Nós não devemos pôr objeções, pois assim marcharemos como deve ser: cons- cientemente. Dessa maneira, há que se aprender a viver. Desgraçadamente, não sabemos viver, estamos dentro da Lei do Pêndulo. Agora, sim, que re- conheço – conversando, aqui, com vocês – que não é coisa fácil não pôr objeções. Saímos da- qui, pegamos nosso “ carrinho ”; de imediato, mais adiante, alguém nos ultrapassa pela direi- ta e nos fecha. Ora, se não dizemos nada, pelo menos buzinamos em sinal de protesto. Ainda que seja buzinando, mas protestamos. Se al- guém nos diz algo – em um momento em que “ baixar a guarda ” – asseguro que protestamos, fazemos objeções. É muito difícil, espantosa- mente difícil, não objetarmos. No mundo oriental, já se tem refletido profunda- mente sobre isto; no mundo ocidental, 12
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